quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Botafogo, preciso te dizer algo

Estou ficando velho e já não controlo tão bem minhas emoções. A estreia do Botafogo na Libertadores 2017 mostrou o quanto posso ficar tenso por conta de uma paixão. Acompanhado de amigos, num certo momento, eu simplesmente desisti do jogo. Era muita tensão desnecessária. Imagine que você se organiza para ver um jogo de futebol que, teoricamente, deveria ser um momento de prazer e simplesmente não consegue ter prazer.

Percebi minha incapacidade no momento do segundo gol. Já ganhávamos por 1 a 0, mas quando a bola balançou a rede e que eu fui levantar da cadeira para comemorar, simplesmente perdi as pernas e sentei-me no chão mesmo. É demais para mim. Como posso seguir a partir deste ponto?


O Botafogo, para quem me conhece, é algo importante em minha vida. É amor sim. Amor gratuito, daqueles sem vergonha que fazem você passar raiva, xingar, chutar e perder o sono. Mas é amor verdadeiro, daqueles que te fazem acordar sorrindo, cantarolando músicas que nem mesmo você sabe a letra. Assim é essa relação. E só quem é Botafogo pode entender do que estou falando.

TEM COISAS QUE SÓ ACONTECEM COM O BOTAFOGO. Na boca de comentaristas, narradores e até de outros torcedores, essa frase não faz tanto sentido. Saída da boca de um botafoguense, ela simplesmente resume o que é o Botafogo. Superstição, amor, raiva, paixão, decepção, glória, fracasso... tudo no mesmo balaio e em poucos minutos. Quem consegue lidar com isso? Eu não mais. Não tenho mais 15 anos. O coração precisa ser preservado para coisas maiores como esposa, filhos, netos...

Botafogo, você continuará sendo meu Botafogo. O mesmo de sempre. Mas não posso, ou não devo, deixar que nosso amor destrua uma das partes desta relação duradoura. Estarei contigo, sempre. Mas não espere mais tanto de mim. O coração precisa ser forte e você castiga demais, mesmo nos momentos de suprema alegria como na vitória contra o Colo Colo.




quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Pássaro das 4

Pela janela do quarto
Escuto um pássaro
Sem falta, sem atraso
Todo dia, às 4

Assim como o veludo
O cantar é macio
No meu mundo desnudo
Nenhum pássaro faz ninho

Lá pelas 4
O cantar é exato
Desperto assim, sem ti
Neste mundo ingrato

Será um tico-tico?
Talvez um bem-te-vi
Sendo certo um sabiá
É porque não está aqui

Esse pássaro sempre volta
Todo dia lá pelas 4
Já meu amor por você
Virou peça de teatro

Ederson Marques

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Nada é nada ou nada é tudo?

O amanhecer hoje foi um pouco diferente. Despertei com uma vontade danada de escrever, sobre tudo e sobre nada. Escrever apenas. Ultimamente tenho pensado nisso. O ofício de jornalista me faz escrever. Todos os dias, escrevo. É uma nota, uma reportagem, um e-mail, uma mensagem nas redes sociais... E por aí vai. No entanto, nem todo dia tenho vontade de escrever. O faço porque necessito.

O paradoxo na minha vontade de escrever hoje está justamente no que escrever. Apesar de querer dissertar linhas e mais linhas, me faltam assuntos ou mesmo um único assunto. Ao tomar meu café da manhã, fiquei pensando nisso. Escrever sobre a vida? Ah, tanta gente o faz a toda hora. Sobre política? Nem comece. Religião é confusão. Futebol é chover no molhado. Sentimentos? Como diriam os gaúchos: Bah! Então caio no nada.

O nada também tem suas virtudes. Não direcionar palavras é uma forma de não julgar atos, situações ou pessoas. O nada, na verdade, é charmoso. Imaginar a ausência de tudo já nos faz pensar em algo grande. Por falar nisso, ainda não chegaram à conclusão sobre de onde surgiu tudo que conhecemos, não? O Universo, não é mesmo? De onde veio? Do nada? O nada pode ser muito misterioso.

O nada pode ser e também pode não ser. Quando alguém tenta mostrar desprezo por algo ou alguém, ela responde: nada. Amigos meus, inclusive, morrem de medo desta resposta. Quando perguntam às mulheres: Meu amor, o que ocorreu? E a resposta vem curta e seca: NADA. Praticamente suas vidas passam pelas suas cabeças em fração de um mísero segundo. Nesta hora, o nada volta a poder ser tudo.

O charme do nada está aí. Meu texto, neste momento, não diz nada com nada. Mas passa uma mensagem: a minha vontade de escrever. Se tu tens uma vontade não perca tempo e execute-a. Você não tem nada a perder, apenas pode ter a frustração de não ter feito nada para que sua vontade prevalecesse sobre o tudo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

É vida que segue... E vida em abundância

Sim, eu sei e todos sabemos que na vida tudo passa, que existe um momento para cada coisa e que tudo ocorre na hora que precisa ocorrer. Essas máximas costumam não fazer muito sentido na hora em que você se depara com situações inusitadas e de desespero. Perder um parente querido, um amor que se vai, um emprego que fica pelo caminho... Tudo é muito doloroso se não estamos minimamente preparados. No entanto, a máxima é verdadeira: tudo passa.

A maneira de encarar essas situações e a forma como você perceberá a carruagem passar são o que importa. Que vai passar, isso sabemos. Recentemente, deparei-me exatamente nesta extrema angústia de querer ver as coisas acontecerem rapidamente. E você, com certeza, também já passou ou passará por isso. Sinto dizer, mas não adianta querer adiantar os ponteiros. Não somos senhores do tempo. Ainda não dominamos, sequer, as nuances da Teoria da Relatividade. O que nos resta então? Sentar e esperar? NÃO.

Nesta hora, de incertezas, precisamos fazer exatamente o contrário. Precisamos viver. E viver intensamente. Certa vez, a Babi Renault escreveu em seu perfil: "Vida, te sinto!" Naquele momento, em que tudo estava nos trilhos, não compreendi o que poderia significar o "sentir" a vida. Hoje, depois da noite escura e da chegada do dia claro, compreendo e saboreio cada caractere desta bela frase.

Passei a semana em João Pessoa, Paraíba. Rever amigos e trocar os ares me mostrou exatamente que, apesar de você se fechar em seu mundo sempre que algo te assusta, o mundo continua girando em volta de si mesmo, em volta do Sol e por aí vai... O movimento dos astros nunca para. Por que, então, você vai parar? Erga a cabeça, comece a caminhar, a correr, a fazer coisas que te dão prazer. Veja e reveja filmes, escute novas músicas, tenha um novo olhar de tudo que te cerca... Olhe com carinho para as pessoas que cruzarem seu caminho. Tudo vale a pena e tudo será diferente se assim você quiser que seja. No fim, o que importa não é o que ficou pelo caminho, mas o que ainda está por vir. E o que está por vir depende diretamente da forma como você olhará a vida a partir de agora. Não temas, pois há um momento para cada coisa e compreender isso é crucial para que seu movimento esteja em sintonia com o resto do Universo. Para terminar, vou deixar apenas uma citação: "Sem você, as emoções de hoje seriam apenas pele morta das emoções do passado". (Hipólito)

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Pokemon X Zizou: A evolução dos bichos de estimação


Como de costume, despertei cedo e fui cumprir os afazeres do dia. O primeiro deles é tratar e levar Zizou, meu Jack Russel Terrier, para uma boa volta. Assim como milhares de pessoas, eu baixei o jogo sensação recém-chegado ao Brasil: Pokemon Go. Decidi aproveitar a volta com Zizou para encontrar alguns desses bichinhos virtuais. E encontrei vários.

Vale ressaltar que a motivação para que eu baixasse esse jogo partiu de meus sobrinhos. Dois deles estão, há 15 dias, comentando com ansiedade a possibilidade. Nunca fui fã do desenho que tem um tal de Pikachú como protagonista, mas fiquei curioso para saber como mesclaram a realidade com a ficção. E, realmente, ficou fantástico.

Voltando ao passeio. Enquanto apontava meu celular para alguns bichos virtuais, sentia a coleira puxando de um lado para o outro. Olho de relance e Zizou me olhava atento. Creio que o animalzinho tentava entender o que se passava. Se pudesse falar, acho que soltaria um sonoro: “Porra, larga essa merda e presta atenção em mim”. Meio que me sentindo um idiota, joguei o celular no bolso e segui. Não demorou muito e o bicho – o celular – vibrou no bolso. Um novo pokemon. Retirei rapidamente e, pimba! Mais um na lista. E quando olho para Zizou, a decepção era flagrante e o distanciamento inevitável.

Retornei ao lar depois de uns 20 minutos de caminhada. Ao entrar, soltei Zizou que foi logo procurando uma bolinha para brincar. Nesse momento alguns pensamentos vieram a me incomodar. Hoje, um cachorrinho já não é visto como no meu tempo de infância. Lá atrás, eu ficava ansioso para encontrar o cachorro que morava na casa da minha avó. Eu ficava a semana toda pensando no Pinguin (nome do vira-lata) e em como poderia brincar com ele. Jogava bola, corria, brincava de cabo de guerra, dava banho... Enfim, era uma festa. Hoje, talvez Zizou já não desperte tanto interesse em meus sobrinhos. Aliás, tenho certeza que não largariam os pokemons nem por um segundo para bater uma peladinha com Zizou. Triste.

Com esta realidade na minha cabeça, peguei Zizou, dei um abraço e falei: “Relaxa negão, você não será trocado por nenhum bicho virtual”. Meio que entendendo o que eu ali falava, Zizou balançou o rabinho e deu-me uma lambida caprichada. Acho que nesse momento fizemos as pazes. Ah! E sobre o Pokemom Go... Quando eu tiver atoa eu penso em capturar outros.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Da malandragem à generosidade. Eis o carioca

“O carioca é aquele que sai na escola de samba
O carioca é aquele que pelo Rio se inflama
O carioca é aquele que vive de gozação
Mas ama seus companheiros, pois todos são seus irmãos”
Ari do Cavaco / Otacílio
 
Nessas idas e vindas ao Rio de Janeiro, o carioca sempre consegue me surpreender. Seja pela malandragem ou pela camaradagem, eles nunca conseguem passar em branco. Meus sete leitores lembram do episódio em que um deles disse que estava me aplicando uma “tática comercial” para justificar uma situação em que ele ganharia mais na venda de duas capas de chuva. Claro que não colou. Mas desta vez, ao levar meu sobrinho Matheus comigo, a situação foi totalmente diferente.
 
Estávamos em Niterói prontos para ir ao jogo do nosso Botafogo. O destino era o Estádio Nilton Santos, no Engenho de Dentro. Uma longa viagem. Pegamos um ônibus no terminal com destino às proximidades da Central do Brasil. De lá, pegaríamos o trem para o estádio. Muitas linhas saem da Central do Brasil e meu receio era passar perto de uma cracolândia que fica perto da entrada da estação. Quando atravessamos a ponte Rio-Niterói, o motorista disse que saltaríamos em breve. Vestidos com a camisa do Botafogo, nos posicionamos perto da porta. Eis que surge o grande Altamir.
 
Escutei uma voz:
 
- Estão indo para o Engenhão? Cuidado com essas ruas próximas à Central do Brasil. São perigosas. Vou visitar meu irmão que mora ao lado do estádio.
 
Não me preocupei:
 
- Se estiveres indo para lá, podemos ir juntos. Afinal, vamos pegar o mesmo trem.
 
E descemos do ônibus. Como adiantara Altamir, a cena era meio triste. Uma longa rua com o comércio agitado. Nas calçadas, alguns “cracudos” e pessoas tomando cerveja. Altamir alertou:
 
- Vamos pelo meio da rua, entre os carros mesmo. É a maneira mais segura de chegarmos à Central do Brasil.
 
Seguimos e tudo deu certo. Durante o caminho, ele perguntou de onde éramos e ao saber que nossa casa era em Brasília, logo sorriu e disse que serviu na Marinha por alguns anos em nossa capital. O sorriso dele não saiu mais do rosto. Perguntou sobre como anda a cidade, a roubalheira dos políticos – mas lembrou que todos os estados mandam para lá a pior corja – e a seca tradicional do cerrado.
 
Já dentro do vagão rumo ao Engenho de Dentro, as cenas mais engraçadas já presenciadas por mim dentro de um trem. Se o conhecido “drops, halls, caramelo, amendoin... Só paga 100” te incomodava, em Brasília, no Grande Circular ou no eterno 145, imagine a seguinte frase:
 
“Atenção ao vendedor. Atenção. Eu estou aqui com esses tabletes de chocolate e vocês não vão adivinhar de onde são. São da Cacau Show. Ehhhh... Aquele que a Camila Pitanga faz propaganda no intervalo da novela. E NÃO SÃO ROUBADOS. Olha bem pra minha cara. Eu tenho cara de ladrão? Juro pela minha sogra mortinha que não são roubados. E o preço? Apenas 5 real. Quem mais vai querer?”
 
Muito interessante o senso de sobrevivência da pessoa. Mesmo sem ter vendido um quadradinho sequer, ele repetia aos gritos: “Quem mais vai querer?”. Confesso que não vi ninguém comprando. Ao mesmo tempo, uma confusão do outro lado do vagão.
 
- Te meto a porrada. Se não quer, não peça – esbravejou o vendedor de cerveja. Sim, um vendedor de cerveja dentro do trem rumo ao estádio. Eu não pensei duas vezes e comprei logo um latão. E olha que estava bem gelada.
 
Altamir, sempre sorrindo, disse:
 
- Hoje estão bem tranquilos. Durante a semana, você não consegue identificar nem o que estão vendendo. É uma gritaria só.
 
Chegamos ao Estádio Nilton Santos e, sempre muito prestativo, Altamir nos deu dicas de como voltar com segurança para Niterói. Disse para não pegarmos o ônibus 154 porque ele passa perto do Maracanã e tinha jogo do Flamengo logo depois. Voltar de trem também poderia ser perigoso, apesar de que quando o jogo do Botafogo terminasse, o do Flamengo já teria começado. A chance das duas torcidas se encontrarem nos trens era bem pequena. Na opinião dele, o melhor seria pegarmos o 170 até a Estação das Barcas e de lá seguir para Niterói. O 170 não passava perto do Maracanã.

Altamir fez questão de nos deixar no portão de acesso. Apesar de ser flamenguista, o que não tira o brio da figura, ele disse que estaria torcendo pelo Botafogo. Deu certo, vencemos o Náutico por 1 a 0. A volta para Niterói, apesar de longa de cansativa, ocorreu tudo bem. E o Altamir restou na memória deste humilde espaço de relatos sobre as andanças pela vida.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Acabou-se. Só restou dentadas

A psicologia canina, se é que existe isso, parece ter dado um nó em minha cabeça. Vocês conhecem as histórias e peripécias de Calvin e Zizou, nossos dois JRTs que gostam de aprontar. Pois bem. Se a amizade entre eles era uma esperança para Calvin se socializar, acabou-se. Os dois não se batem mais. Mais que isso: querem se matar, ao que parece. É dentada para todo lado. Juntos, agora, só em fotografias. Daquelas que serão vistas daqui a anos e surgirão comentários: "Como eram amigos. Até sei lá quem fazer sei lá o que com o outro".

Não sei dizer quem começou ou porque começou. Certo é que a guerra agora é aberta e não existe mais alvo civis ou militares. Vale tudo. Meu cunhado ganhou uma fêmea de JRT, a Lalai. Até então, uma oportunidade para Zizou conhecer outra criatura dócil e sapeca. Saí de casa a pé para a visita, que ocorreu na noite passada. Depois de mais ou menos 1,5 km cheguei ao destino. Peguei o elevador e logo estava de frente para a porta da discórdia.

Toc, toc, toc... Após não ser atendido, toquei a campainha. Pléééééé!!! Algo arranhou a porta na parte inferior. Calvin percebera a presença de Zizou e se preparou. Para evitar um ataque frontal, peguei Zizou no colo e a porta se abriu. Os saltos do Calvin já mostravam a vontade que ele estava de massacrar. Levantei mais alto para que ele não alcançasse as patas de Zizou. Sem sucesso. Calvin achou o rabo de Zizou e lascou a dentada, ficando por alguns segundos pendurados até que eu desse um tapa nele. O sangue mostrou a gravidade do ataque. Demoramos uns 5 minutos para estancar.

Ferido, Zizou tentou de toda forma descer para revidar aquela mordida. Arrepiou-se todo e tentava se soltar das minhas mãos a dentadas também. Fiquei marcado com isso. Minha cunhada pegou Calvin e o trancou no primeiro cômodo que viu. Ali ficou constatado que entre Calvin e Zizou tudo se acabou. Não resta mais nada. Apenas dentes para lá e dentes para cá.

Ah, e sobre a Lalai... É uma criatura danada, agitada, dócil e também gosta de morder. Talvez pelos dentes ainda serem de leite – ela só tem 60 dias – as mordidas são necessárias. Zizou brincou com ela e não mais viu Calvin na noite. Triste saber que agora ou tenho que estar com Zizou ou com Calvin. Os dois juntos, só em fotografias.

Calvin e Lalai brincando. Falta Zizou, mas isso agora é impossível.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Um braço para lá de especial

Por muito tempo busquei olhar o céu do Brasil de uma forma especial. Contemplar as estrelas e os cosmos é parte da minha vida. Sempre que posso, e as nuvens permitem, olho para o céu noturno do hemisfério sul. Antes que me perguntem, respondo. Eu nunca comprei uma luneta para olhar melhor essa maravilha. O motivo? Não sei explicar. Gosto de tudo relacionado ao universo. E acredito que não passamos de poeira cósmica criada por algum ser muito superior. Neste caso, Deus.

Na chácara São Francisco, já consegui presenciar céus incríveis. Uma noite sem lua, com falta de energia em Alexânia (cidade a 10 km de distância), o céu realmente se despiu. Mas nunca foi o que eu buscava ou passou perto do que eu buscava. Eu buscava ver um pedaço do braço. Sim. Do braço da nossa Via Láctea. É sabido que nosso Sistema Solar orbita nossa galáxia na extremidade de um de seus braços em espiral. E estamos muito distantes do centro da Via Láctea. Muitos cientistas, aliás, acreditam que exista um buraco negro lá no meio. Mas isto ainda é motivo de discussão entre os cabeçudos. Eu vou me ater ao que vi.

No dia 25 de novembro de 2014, peguei um avião para João Pessoa, na Paraíba. Era para eu sair de Brasília às 23h50, mas a forte chuva adiou o voo por mais de uma hora. Paciência. Voamos então para Salvador, na Bahia, onde fizemos uma escala. De Salvador para João Pessoa atrasaram mais uma hora. Quase perdido no tempo, por conta dos atrasos, vi que ao sair de Salvador o relógio já passava das 3h da matina. A partir daí, contemplei o que esperei muito tempo para ver.

Após a decolagem, percebi que a rota a seguir ia perto da costa, mas sobre o Oceano Atlântico. Depois que as luzes de Salvador ficaram para traz, surgiu o toque de sorte. O piloto apagou todas as luzes do avião e as pessoas dormiram. Resultado: tudo escuro dentro e fora da aeronave. Perfeito. Eu estava sentado na poltrona 23F, longe das asas e, portanto, longe da luz emitida por elas. E eu estava posicionado para o lado do oceano. Não poderia perder a chance. Para completar a sorte, céu de brigadeiro.

Olhei para o lado e lá estava ele. O firmamento era facilmente identificado por conta da claridade emitida por milhares, talvez bilhares de estrelas. Quem poderia contar? Busquei a constelação do Cruzeiro do Sul para me localizar. Encontrei com dificuldade, pois nunca havia contemplado tantas estrelas no céu. Percebi que a cada segundo ele ficava para trás, seguindo para a calda do avião. Lembre-se que nosso destino era ao Norte.

Fiquei imaginando o que Edmond Halley viu ao mapear, em 1678, as estrelas do céu meridional. Imaginei também por quantas vezes essas estrelas salvaram a vida dos conquistadores, mostrando o caminho para o Novo Mundo e também para o triste massacre da cultura indígena da América. As estrelas são sempre um achado novo e velho. Olhar hoje para o céu é olhar para as estrelas em 1994, segundo especialistas. Isto porque a luz viaja muito para chegar aqui e, portanto, quando chega já se passaram quase 20 anos de sua emissão. E isto é fantástico.

Não vou me alongar mais. Estou publicando duas fotos que chegam perto do que eu vi na chácara São Francisco e no voo de Salvador para João Pessoa. A segunda, que mostra o braço da Via Láctea, chega mais perto do que vi lá de cima. Acho que será difícil repetir esse feito. Mas nós não sabemos os mistérios, os segredos e as surpresas que os cosmos nos preparam.

Esse vídeo é incrível e mostra o efeito que a rotação da Terra faz com o braço da Via Láctea no hemisfério sul.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Canário, uma contradição incompreensível

É estranho não compreender as atitudes dos homens. Imaginem o quão terrível é, por exemplo, prender um Canário da Terra em uma gaiola por amá-lo e apreciar seu canto. De fato nunca compreendi a lógica disso. Tive, quando criança, dois periquitos australianos. Aqueles coloridinhos que você compra em qualquer casa rural. Quando morreram, chorei e me culpei por tê-los deixado preso a vida toda naquela gaiolinha. Nunca mais quis ter pássaros.

Muitos anos se passaram e meu contato com pássaros apenas diminuiu. No máximo via pombas urbanas e pardais pelas ruas de Brasília. Nada muito especial como quando era criança, ainda na fazenda onde um tio trabalhava e a gente via João de Barro, Rolinhas, Bem-Te-Vi, Tiziu, Pica-Pau, Araras, e outras tantas espécimes. Confesso que já não parava para escutar um canto, para ver a cor da plumagem, apreciar a natureza das aves.

A vida se resumiu a pombas urbanas e pardais. Até que meu pai comprou uma chácara em Goiás. No início, não havia muitos pássaros. Contam que os filhos do vizinho viviam com estilingues carregados para derrubar qualquer pássaro que ousasse sobrevoar a área. E realmente não ouvíamos muitos cantos por perto, apesar de estarmos dentro do cerrado. Estranho não?

Mas isso mudou. E é agora que entra a parte mais contraditória desta vida que às vezes não consigo compreender. Um compadre meu, o Rezende, é um amante de pássaros, principalmente de Canário da Terra. Desde criança, via em sua casa gaiolas com vários deles presos e cantando. Rezende sempre se orgulhou de seus canários. Com o passar dos anos, montou um grande viveiro em um cômodo de outra casa. Pela manhã, quando por lá dormia, acordava ao canto deles logo no romper da alvorada. Era diferente, pois como disse antes, a vida se resumiu a pombas urbanas e pardais.

Rezende, então, provou que a mesma mão que prende, liberta e preserva. Como? Ele pegou um casal de Canário da Terra e levou para a chácara. Iniciou-se, aí, um processo de reintegração na natureza de canários que antes estavam presos. Com a colocação dos canários, vieram as Rolinhas, o João de Barro, o Tucano, o Sabiá... A natureza voltou a ser ocupada por eles e meus ouvidos passaram a escutar sons que há tempos já tinham sido esquecidos.

Devemos agradecer sempre por aquilo que não compreendemos. Não fosse o Rezende, aquele mesmo que tinha pássaros presos em sua casa, não conseguiríamos repor aquilo que foi caçado pelo homem. Hoje, o amanhecer na Chácara São Francisco é calmo, sereno e com muito canto de pássaros. Como manda a Mãe Natureza.

Obrigado Rezendão

Pra você deixo essa música



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Zizou na área... mais confusão

Que meus seis leitores já conhecem o Calvin isto não tenho dúvida. A parada agora é outra. Não bastasse o Calvin para fazer todas as travessuras do mundo possíveis e morder calcanhares distraídos, ganhamos mais um amigo: Zizou. O nome não é novidade neste humilde espaço. A novidade é que ele não é filhote do Calvin. Enfim, o dono do canil de Jack Russel Terrier ofereceu um e nós aceitamos.

Na rua, ninguém consegue distinguir quem é Calvin e quem é Zizou no jogo do bicho. Isto porque são irmãos. Mas apenas por parte de mãe. A marca na cara é praticamente a mesma. No entanto, fisicamente Zizou é mais alto que Calvin. No meio dos profissionais, um é chamado de JRT pata curta e o outro de JRT pata longa. A personalidade de um também é bem diferente do outro. Calvin é o que já conhecem. Ziziou é mais tranquilo, talvez por ter ficado no canil até seus 11 meses.

Zizou chegou à nossa casa com muito medo. Medo de tudo. Até de sua sombra. Tão desconfiado, que ao sair para passear parecia uma pessoa saindo da balado no fim da noite para pegar o carro no estacionamento escuro: olha para todos os lados, menos para frente. E foi numa dessas, sem que eu percebesse, que ele deu de cara no porte de uma placa de trânsito. O barulho foi um só... toc!

Em um encontro com um cachorrinho bem menor que ele, Zizou colocou o rabo entre as pernas e simplesmente vazou. Outra vez, a coleira soltou da minha mão e bateu no rabo dele. Esse cachorro pegou uma carreira que pensei: “meu Deus, como vou explicar que perdi o cão no segundo dia?”. Isto porque quanto mais ele corria, mais a coleira batia no rabo dele e mais ele se assustava. Minha sorte é que a coleira ficou presa na roda de um carro no estacionamento e ele parou.

Depois, com uma semana de novo lar, ele recebeu a visita do Calvin. A farra foi grande. E isto deu mais confiança a ele. Hoje, passadas quase três semanas, Zizou já está na boa. Recentemente, deu até aula de etiqueta para o Calvin na chácara da família. Enquanto Calvin ficou preso por mau comportamento (morder tornozelos de crianças e quem mais aparecesse pela frente), Zizou entrou na roda e conquistou a todos. As crianças então, nem se fale. Era carinho pra lá e pra cá. Mas Calvin também se divertiu e isto que importa.

Agora temos dois JRT. Um para fazer nossa alegria e tocar o terror e o outro para fazer a alegria das crianças. E assim segue a vida.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Solta o calcanhar dele, Calvin

Vergonha deveria ser a palavra certa para descrever o que o Calvin tem aprontado ultimamente. Baixinho, ele não perde tempo em dar umas boas dentadas nos calcanhares distraídos que passam por perto de sua grande boca. O “bote” parece de uma cobra: rápido e certeiro. E nós, responsáveis por sua educação, ficamos com cara de chinelo com familiares e visitas.

Na sexta-feira, o amigo Eduardo veio nos visitar. Paloma e eu pensamos: “que legal. Vamos levar o Calvin pra casa para ele conhecer nosso amigo e se divertir”. Tudo estava arrumado. Só faltou combinar com o Calvin. Faltou. Por volta das 16h30, depois de arrumar a casa, fui buscar o mascote. Alegre, esse Jack Russel Terrier logo percebeu que sairia para mais uma festinha. Antes mesmo de pegar sua comida e seus brinquedos, ele já pulava em minhas pernas e corria para a porta de saída. Entrou no carro e, para variar, colocou a cabeça para fora da janela. Aliás, isso é novo nele. Tenho deixado a janela aberta só com espaço para ele colocar a cabeça. Porque da última vez que fiz um teste com toda janela aberta, ele simplesmente saltou do carro, que estava a uns 15km/h. Foi sofrido.

Em minha casa, Calvin já se sente a vontade. Sobe no sofá, corre pelos quartos, lancha na área de serviço e espera a hora de descer. Começo a acreditar que ele está se acostumando com o apartamento. Tomara. Já passava das 20h quando decidimos levar o Calvin junto para buscar o Eduardo no aeroporto. Chegamos e ficamos no estacionamento por mais de meia hora. Calvin, claro, ficou numa agonia danada e começou a latir para rodas, carrinhos, sapatos e tudo mais que conseguir enxergar por debaixo do carro. E todos olhavam admirados.

Eis que Eduardo chegou. Ao longe fiz sinal para ele. Apesar da grande miopia, percebeu ser eu a gesticular. Ele não sabia da presença de Calvin e foi chegando, chegando... Aí veio o “bote” certeiro... Em menos de um segundo, Calvin, o veloz, salta e cai de boca no tênis do Eduardo. Paloma acredita que Calvin teve ciúmes de mim. Não sei ao certo, mas pode ser. Sempre que estou por perto o comportamento dele é esse. E quando estou longe, segundo relatos, é de um cão mais tranquilo.

Entramos no carro e Calvin continuou. Eu no volante, Eduardo no banco do passageiro e Paloma se gladiando com Calvin para que ele parasse de latir e tentar morder o Eduardo. Uma decisão foi tomada: “vamos deixá-lo na Veruscka”. Tadinho, saiu para passear e agora iria voltar para sua casinha. No meio do caminho, Calvin parou de latir. No entanto, consideramos ser mais prudente levá-lo para lá. A noite seria de bons papos e cerveja gelada.

Não foi a primeira vez que Calvin, o mordedor, conseguiu achar um pé. Na chácara do meu pai, certa vez, o deixei embaixo do pé de caju enquanto arrumava algumas coisas. Meu irmão veio todo distraído e passou por perto. O “bote” mais uma vez foi certeiro e o sangue escorreu pelo pé. Não que as mordidas do Calvin sejam fortes. Os dentes são afiados. E ele morde, na maioria das vezes, por brincadeira. Mas isto, poucas pessoas entendem. De qualquer forma, o Calvin continua nos oferecendo bons momentos de alegrias e risadas.

Da obra vermelha para o vermelho da vergonha

Definitivamente, tem coisas que só acontecem comigo... e com o Botafogo. Nessas andanças pelo Brasil, deparei-me novamente com a bela Belo H...